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A mostrar mensagens de janeiro, 2025

Estimativa do sexo com o rádio: uma nova aplicação online

Provavelmente já se encontram familiarizados com uma série metodológica que, desde há 10 anos, vem propondo métodos para estimar o sexo usando diferentes elementos do esqueleto, desde o fémur à pélvis - entre outros . Alguns destes métodos foram gerados através de experiências inovadoras que tiram proveito das potencialidades tecnológicas dos aplicativos online , da machine-learning ou da imagiologia médica. Em 2021, publicámos o artigo « Sex Assessment with the Radius in Portuguese Skeletal Populations (Late 19th – Early to Mid 20th Centuries) » na Legal Medicine , uma proposta de predição do sexo esquelético a partir de mensurações do rádio cujos modelos estatísticos usam a regressão logística e support vector machines . Ao contrário de outros conceitos metodológicos que foram potenciados na forma de aplicações online, disponibilizadas de forma gratuita na plataforma Osteomics , esta técnica não «mereceu» esse tipo de «promoção».  Desse modo, desenvolvi uma aplicação – disponí...

Sexo, sexo biológico, género #1

Para alguém minimamente versado nas minudências metodológicas da antropologia forense, este mantra é mais célebre que o Cristiano Ronaldo: o sexo é um dos quatro parâmetros básicos do perfil biológico (os outros são a idade à morte, a estatura e as afinidades populacionais), e usualmente é o primeiro a ser estimado.  Mas do que falamos quando falamos de sexo? Convém desde já declarar que quando falamos de sexo no âmbito do estudo do esqueleto humano não estamos a falar de relações sexuais. O sexo (e, por consequência, o sexo esquelético) é outra coisa e, portanto, é definido de forma distinta.  Desse modo, em termos biológicos, o sexo dos organismos é usualmente definido com base nas suas características reprodutivas e na função que desempenham na reprodução. A maioria dos organismos sexuados é classificada de acordo com os tipos de gâmetas que produzem : as fêmeas produzem gâmetas grandes e imóveis (óvulos), e os machos produzem gâmetas pequenos e móveis (espermatozoides). A...

Estimativa do sexo biológico no esqueleto humano: a tíbia e a fíbula também existem

Acaba de se publicar mais um paper  filiado numa já longa série metodológica que, desde 2016, vem propondo técnicas de estimar o sexo biológico a partir do esqueleto humano e das suas partes constituintes, os ossos. Este artigo -  Sex Estimation from the Fibula and Tibia: A Study in Three Portuguese Reference Collections - não apresenta novidades do ponto de vista estatístico (os modelos de predição baseiam-se na regressão logística, permitindo uma estimativa probabilística do sexo biológico) mas, além de ter sido elaborado a partir de amostras de três coleções osteológicas Portuguesas de referência, foca-se em dois ossos - menos a fíbula que a tíbia , ainda assim - que poucas vezes são considerados como relevantes na propedêutica bioarqueológica ou forense, e muito menos durante as análises laboratoriais ditas ponderosas .  Este trabalho propõe modelos com mensurações fibulares e tibiais, isoladas ou em conjunto, com exatidão variável entre os 80.1% e os 89.7% (sob va...

As caras do rei

A relevância científica da reconstituição facial do rei D. Dinis é discutível. Tal como a cor dos seus olhos, ou a confirmação da sua origem biogeográfica (era Europeu, mas isso já se sabia desde que o pequeno Dinis nasceu em alcova ancestral da Casa de Borgonha).  Todavia, uma cara é um elemento central de reconhecimento e expressão, e serve como uma interface única que combina aspectos físicos, sociais, culturais e emocionais. Uma cara funciona como um ponto de conexão superficial que permite que os outros nos identifiquem e se aventurem numa espécie de descoberta por inferência da nossa personalidade. Acima de tudo, as caras funcionam como espelho - e é a partir delas que radica tantas vezes a explosão de empatia que alicerça amizades, relações amorosas ou afinidades eletivas.  Quem vê caras, não vê corações - mas vê alguma coisa importante, de outro modo indefinível ou inalcansável. As expressões faciais e os traços visíveis da cara ativam a empatia, o julgamento ou a...

Eça de Queiroz entre Paris e o Panteão

A trasladação dos remanescentes mortais do escritor Eça de Queiroz (1845 – 1900) do cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, para o Panteão Nacional, em Lisboa, é interessante a vários níveis, mas sobretudo do ponto de vista ético. Eça morreu na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, em meados de Agosto do ano de 1900. Pouco tempo depois, em Setembro do mesmo ano, foi trasladado para Lisboa onde foi sepultado no jazigo dos condes de Resende, no cemitério do Alto de São João, com honras de Estado. Em 1989 foi a sepultar no cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião – emulando de certa forma a viagem do Jacinto de «A cidade e as serras» entre Paris e Tormes. Em 2020, uma petição lançada à Assembleia da República pela Fundação Eça de Queiroz (então encabeçada por um dos bisnetos do escritor, Afonso de Queiroz Cabral) solicitava «honras de panteão nacional», aprovada de forma unânime. A jornada do esqueleto de Eça conheceria mais um destino.  Eça de Queiroz nada disse – pelo...