Avançar para o conteúdo principal

Sexo, sexo biológico, género #1

Para alguém minimamente versado nas minudências metodológicas da antropologia forense, este mantra é mais célebre que o Cristiano Ronaldo: o sexo é um dos quatro parâmetros básicos do perfil biológico (os outros são a idade à morte, a estatura e as afinidades populacionais), e usualmente é o primeiro a ser estimado. 

Mas do que falamos quando falamos de sexo? Convém desde já declarar que quando falamos de sexo no âmbito do estudo do esqueleto humano não estamos a falar de relações sexuais. O sexo (e, por consequência, o sexo esquelético) é outra coisa e, portanto, é definido de forma distinta. 

Desse modo, em termos biológicos, o sexo dos organismos é usualmente definido com base nas suas características reprodutivas e na função que desempenham na reprodução. A maioria dos organismos sexuados é classificada de acordo com os tipos de gâmetas que produzem: as fêmeas produzem gâmetas grandes e imóveis (óvulos), e os machos produzem gâmetas pequenos e móveis (espermatozoides). A diferença de tamanho das células sexuais denomina-se anisogamia. 

Nos humanos e outros mamíferos, os machos tipicamente possuem cromossomas X e Y, enquanto as fêmeas possuem dois cromossomas X. Os humanos podem ser, também, intersexo. Os indivíduos intersexo são pessoas que nascem com variações nas características sexuais, incluindo variações genitais, gonadais, hormonais ou cromossómicas.

Na literatura antropológica e médica, os termos «sexo» e «género» muitas vezes coalescem. Todavia, não são sinónimos, não possuem o mesmo significado e, desse modo, não devem ser usados em substituição um do outro. O género é uma construção social que engloba os papéis expectáveis com base no sexo do indivíduo (papel de género) ou a forma como a pessoa se identifica de acordo com a sua consciência pessoal (identidade de género).

O sexo biológico é facilmente estimado no esqueleto, enquanto o género dificilmente se vislumbra numa avaliação simples e direta do mesmo. Voltaremos a isto. 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sistemas de suporte à decisão em Antropologia Forense e Bioarqueologia: uma lista provisória

[1]   https://vertigemdasespecies.shinyapps.io/RADIUsex/ Uma aplicação que facilita a estimativa probabilística do sexo biológico a partir de medidas do rádio. Os seis modelos propostos permitem estimar o sexo mesmo quando o rádio se encontra fragmentado ou incompleto. Ler também:  Curate F, Mestre F, Garcia SJ (2021) Sex assessment with the radius in Portuguese skeletal populations (late 19th – early to mid 20th centuries). Leg Med 48:101790. https://doi.org/10.1016/j.legalmed.2020.101790 [2]  https://vertigemdasespecies.shinyapps.io/StaturEst/ Esta aplicação foi implementada com o intuito de simplificar a estimativa da estatura em remanescentes esqueléticos provindos de contextos (forenses ou arqueológicos) em Portugal. Ler também:   De Mendonça MC (2000) Estimation of height from the length of long bones in a Portuguese adult population. Am J Phys Anthropol 112:39–48. https://doi.org/10.1002/(sici)1096-8644(200005)112:1<39::aid-ajpa5>3.0.co;2-%23 [...

Curvas que não contam o tempo: os equívocos da análise de sobrevivência em bioarqueologia

É domingo, como se pode verificar em qualquer calendário, e eu devia estar a apreciar alguma reposição do Poirot, mas acabei agora mesmo de rever um artigo científico (podemos situá-lo algures nas vastas paisagens da antropologia biológica) que, uma vez mais, (ab)usa das curvas de Kaplan-Meier. Assim, não posso deixar de inscrever aqui a minha indisposição. Nos últimos anos, algumas investigações em bioarqueologia, paleopatologia e até antropologia forense, têm recorrido a métodos estatísticos desenvolvidos para estudos clínicos e epidemiológicos, nomeadamente a análise de sobrevivência ( survival analysis ) e a construção de curvas de Kaplan–Meier. Estes métodos foram concebidos para analisar dados longitudinais de tempo até ao evento , em que cada indivíduo é seguido ao longo da vida e se regista o momento em que ocorre um determinado desfecho (e.g., morte, fratura ou recaída), podendo ainda acomodar situações de censura (quando o evento não é observado durante o período de estudo). ...