Um estudo recente publicado na revista Nature Human Behaviour analisou um grande enterramento coletivo descoberto no sítio arqueológico de Gomolava, na bacia dos Cárpatos (Sérvia). O túmulo, datado do século IX a.C. (Idade do Ferro inicial), contém os restos mortais de 77 indivíduos, oferecendo uma das evidências mais claras de violência em larga escala na Europa pré-histórica.
Um perfil demográfico invulgar
A análise bioarqueológica revelou um padrão demográfico surpreendente: a maioria das vítimas eram mulheres e crianças. Este perfil difere do que é frequentemente observado em contextos de violência e conflito, onde predominam homens adultos, sugerindo um evento de violência dirigida contra segmentos específicos da população.
Evidências diretas de morte violenta
O estudo identificou lesões traumáticas peri-mortem em cerca de 18% dos indivíduos, sobretudo no crânio. Quando se consideram outras evidências osteológicas, pelo menos 20% dos indivíduos apresentam sinais de violência.
A maioria das lesões resulta de impactos contundentes, embora também existam ferimentos provocados por armas perfurantes ou projéteis. A distribuição das lesões sugere que muitas vítimas foram atacadas por trás, enquanto fugiam ou se encontravam em posição vulnerável.
As vítimas não pertenciam a uma única família
Análises genéticas realizadas em 25 indivíduos indicaram uma quase total ausência de relações de parentesco próximo entre os indivíduos da amostra. Apenas um pequeno grupo correspondia a uma mãe e às suas duas filhas. Isto sugere que o conjunto de vítimas não representava uma única família ou comunidade doméstica, mas provavelmente um grupo heterogéneo proveniente de uma população regional mais ampla.
Um episódio de violência estratégica?
A combinação de dados bioarqueológicos, genéticos e isotópicos indica que este enterramento coletivo resulta provavelmente de um único episódio de violência extrema. As vítimas foram enterradas pouco tempo após a morte, sugerindo que o massacre ocorreu nas proximidades do sítio arqueológico.
Segundo os autores do artigo, o perfil demográfico das vítimas e o contexto histórico apontam para um ato deliberado de violência coletiva, possivelmente ligado a conflitos regionais, deslocações populacionais ou estratégias de dominação territorial.
O que revela este caso sobre a violência no passado
Este estudo fornece evidências de que, já na Idade do Ferro, a violência podia assumir formas estratégicas e seletivas, dirigidas contra determinados grupos sociais; neste caso, mulheres e crianças. O estudo mostra também como abordagens interdisciplinares que combinam bioarqueologia, arqueogenética e análises isotópicas podem revelar não apenas como as pessoas morreram, mas também as dinâmicas sociais e políticas por detrás dos episódios de violência no passado.
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