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Curvas que não contam o tempo: os equívocos da análise de sobrevivência em bioarqueologia

É domingo, como se pode verificar em qualquer calendário, e eu devia estar a apreciar alguma reposição do Poirot, mas acabei agora mesmo de rever um artigo científico (podemos situá-lo algures nas vastas paisagens da antropologia biológica) que, uma vez mais, (ab)usa das curvas de Kaplan-Meier. Assim, não posso deixar de inscrever aqui a minha indisposição.

Nos últimos anos, algumas investigações em bioarqueologia, paleopatologia e até antropologia forense, têm recorrido a métodos estatísticos desenvolvidos para estudos clínicos e epidemiológicos, nomeadamente a análise de sobrevivência (survival analysis) e a construção de curvas de Kaplan–Meier. Estes métodos foram concebidos para analisar dados longitudinais de tempo até ao evento, em que cada indivíduo é seguido ao longo da vida e se regista o momento em que ocorre um determinado desfecho (e.g., morte, fratura ou recaída), podendo ainda acomodar situações de censura (quando o evento não é observado durante o período de estudo).

No entanto, a sua aplicação a amostras esqueléticas é problemática e conceptualmente incorreta. Em contextos arqueológicos ou de coleções osteológicas de referência, o que se observa é apenas o resultado final do processo biológico (a idade à data da morte) e não o percurso individual ao longo do tempo. Não existe seguimento longitudinal, nem casos de censura, já que todos os indivíduos estão mortos. Além disso, estas amostras estão sujeitas a múltiplos vieses (e.g., processos tafonómicos, práticas funerárias, selecção arqueológica) que afetam a representatividade e inviabilizam a assunção de independência e completude de dados, pressupostos básicos de uma análise de sobrevivência.

Assim, o uso de técnicas como as curvas de Kaplan–Meier em amostras esqueléticas pode conduzir a interpretações erradas, pois sugere a existência de uma dimensão temporal de risco e de sobrevivência que na realidade não está documentada. Para o estudo da mortalidade em populações do passado, continuam a ser mais adequadas abordagens baseadas em tábuas e modelos de mortalidade (e.g., Gompertz–Makeham) e métodos demográficos desenvolvidos especificamente para dados de idade à morte obtidos a partir de remanescentes humanos.

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