Este texto não versa - felizmente - sobre o próximo derby da cidade de Lisboa, e que poderá atribuir o título de campeão nacional de futebol às Águias do Benfica ou aos Leões do Sporting. Apesar de tudo, pretendo falar de algo bem menos violento e eivado de ódio.
Como é lógico supor, os leões também se encontram envolvidos no tópico deste texto. Mas são leões de outra natureza, menos metafóricos e mais corpóreos - mesmo encontrando-se bem longe da proverbial selva [tendo em conta a sua distribuição ecogeográfica, talvez seja melhor coroar o famoso Panthera leo como rei da savana e não da selva]. Ninguém dúvida que a cidade de York, no norte de Inglaterra, está bem afastada das planícies semi-áridas do Serengueti mas a verdade que é existem provas arqueológicas que sugerem a presença de leões na mui antiga Eboracum de fundação Romana.
Não foram encontrados ossos de leão na cidade. Não vamos por aí. Num pátio da cidade, foram recuperados os remanescentes esqueléticos de 80 humanos, a maior parte pertencentes a homens relativamente jovens. Muitos deles apresentavam lesões traumáticas sérias, compatíveis com episódios iterados de violência inter-pessoal: na cabeça, na face, nas mãos, nos dedos e nas vértebras. Mais de metade destes homens havia sido decapitada - a decapitação era algo relativamente normal em contextos que envolviam os chamados gladiadores.
Como se este cortejo de horrores não fosse suficiente para aterrorizar o incauto leitor do século XXI, um dos esqueletos decapitados apresentava marcas de dentadas na zona da anca [na verdade, os leões normalmente não atacam esta área do corpo mas os autores do artigo avançam com hipóteses explicativas que são plausíveis]. Avancem as comparações: as dentadas são perfeitamente compatíveis com as de um leão. Pela primeira vez, confirma-se de forma direta aquilo que desde há muito se representava na literatura ou no cinema - combates mortais entre gladiadores e grandes felídeos nos anfiteatros do mundo Romano. Só que desta vez, Sansão - o ser humano - perdeu contenda e acabou por morrer.
[Thompson TJU, Errickson D, McDonnell C, Holst M, Caffell A, Pearce J, et al. (2025) Unique osteological evidence for human-animal gladiatorial combat in Roman Britain. PLoS ONE 20(4): e0319847. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0319847]
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