Um artigo recentemente publicado no International Journal of Osteoarchaeology apresenta o estudo paleopatológico de um homem adulto, mumificado de forma natural, descoberto na Igreja de São José dos Carpinteiros, em Lisboa, e datado do século XVIII. O excelente estado de preservação dos tecidos moles, o vestuário cuidado e o enterramento intramuros, um privilégio usualmente reservado a indivíduos de estatuto elevado, permitem enquadrar este caso num contexto social e histórico bem definido. A análise radiográfica revelou sinais claros de Hiperostose Esquelética Difusa Idiopática (DISH), uma patologia caracterizada pela ossificação progressiva dos ligamentos da coluna vertebral, sobretudo ao nível torácico.
Para além da DISH, foram identificados outros indicadores de saúde e de história de vida, como desgaste dentário acentuado, patologia periapical, osteoartrose, uma fractura costal cicatrizada e linhas de Harris, que apontam para episódios de stress fisiológico durante a infância ou juventude.
O artigo discute criticamente a associação tradicional entre DISH e elites sociais, sublinhando que, embora certos factores ligados ao privilégio, como dieta rica e menor exigência física, possam aumentar o risco da doença, a sua etiologia é multifactorial, envolvendo também idade, sexo, factores metabólicos, genéticos e mecânicos. Assim, a DISH não deve ser vista como um marcador exclusivo de estatuto, mas antes como o resultado da interacção entre biologia, estilo de vida e contexto sociocultural.
Este trabalho demonstra o potencial da paleopatologia para explorar desigualdades sociais, envelhecimento e experiência corporal no passado, integrando evidência biológica e arqueológica numa leitura mais completa das populações históricas.
[Piombino-Mascali, D., Girčius, R., Curate, F., Santos, C., Amarante, A. I., Sousa, S., & Cunha, E. (2026). Echoes of Privilege: A Mummified Case of DISH From 18th-Century Portugal. International Journal of Osteoarchaeology, 1–8. https://doi.org/10.1002/oa.70066]
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