Um novo estudo publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela algo tão surpreendente quanto desconfortável: entre os chimpanzés de Ngogo, no Uganda, a violência letal entre grupos pode trazer benefícios para a sobrevivência e reprodução, sobretudo das fêmeas e das suas crias. Entre 1998 e 2008, os machos deste enorme grupo de chimpanzés mataram pelo menos 21 indivíduos de comunidades vizinhas. Depois de reduzirem a força dos rivais, avançaram sobre o território alheio e, em 2009, anexaram cerca de 6,4 km² de floresta, um aumento de 22% na área que controlavam.
Mas a parte mais interessante surge depois: o que acontece à demografia do grupo que vence uma «guerra» deste tipo?
As fêmeas passaram a dar à luz muito mais frequentemente, mais do dobro dos nascimentos, e a mortalidade infantil caiu drasticamente, de 41% para apenas 8%. Estes ganhos não se explicam somento pelo acesso a uma quantidade maior de alimentos, mas sim pelos ganhos territoriais e pela redução do risco de ataques externos, incluindo infanticídio por machos rivais. Assim, a violência inicial resultou em melhores condições energéticas para as fêmeas e maior segurança para as crias, aumentando de forma significativa o sucesso reprodutivo do grupo (e individual).
Embora estes resultados sugiram que a agressão entre grupos pode ter valor adaptativo nos chimpanzés, é fundamental evitarmos qualquer leitura simplista que naturalize a «guerra» entre grupos humanos. O que observamos nos nossos parentes vivos mais próximos não traduz inevitabilidade biológica ou destino histórico. A violência entre chimpanzés tem contextos específicos, ecológicos e sociais, e os comportamentos humanos, apesar das continuidades evolutivas, são sempre moldados pela cultura, instituições, moralidade, ética e escolhas coletivas.
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