Durante alguns anos passei férias em família na praia de Monte Clérigo, em Aljezur, uma zona que hoje está colada ao mar, mas que há 80 mil anos se encontrava a alguns quilómetros da linha costeira. É precisamente neste cenário que o artigo «Neanderthal coasteering and the first Portuguese hominin tracksites» nos revela resultados fascinantes sobre os ainda tão incompreendidos neandertais.
O estudo descreve dois sítios de pegadas de hominíneos no extremo sudoeste da Europa. Em Monte Clérigo, datado de cerca de 78 ± 5 ka, foram descobertas pegadas pertencentes a três indivíduos, sugerindo que os neandertais sabiam navegar por sistemas dunares — provavelmente planeando rotas e aproveitando estas estruturas naturais para emboscar ou perseguir presas. Já na Praia do Telheiro surgiu uma pegada isolada que sugere a presença de H. neanderthalensis no ecossistema dunar durante o MIS 5a
As pegadas observadas em Monte Clérigo (e também na Praia do Telheiro) mostram que o H. neanderthalensis utilizava activamente este ambiente deslocando-se em grupo e explorando os recursos disponíveis. A investigação sugere que estas populações planeavam os seus movimentos, talvez utilizando as dunas como corredores naturais para caçar ou deslocar-se entre zonas de interesse.
Além do registo de pegadas, a análise de redes ecológicas indica que a dieta destes grupos era variada, baseada sobretudo na caça de grandes herbívoros (e também da consideravelmente mais pequena lebre), mas com aproveitamento dos recursos marinhos, evidenciando uma estratégia diversificada que tirava partido da biodiversidade local.
Estes dados contribuem para uma imagem mais rica e dinâmica dos neandertais, demonstrando a sua capacidade de adaptação e o conhecimento profundo que possuíam do território que habitavam — um território que, no meu caso, está cheio de memórias bem mais recentes, de passeios à beira-mar e pegadas despreocupadas na areia molhada, sem cuidados de orientação ou procura ativa de alimentos.
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