A informação veiculada pelos jornais desportivos – mas não só – convoca imediatamente uma sensação de estranheza, até de deslocamento ontológico: um homem argentino levou o crânio do avô a um jogo de futebol, mais precisamente à final da Copa Sudamericana que o Racing de Avellaneda venceu. Não é o primeiro jogo que o crânio segue desde as bancadas. Em 2019, no jogo que daria o título do campeonato argentino ao clube celeste y blanco, o inusitado hincha encontrava-se também nas bancadas a «celebrar» a vitória depois de ter sido exumado pelo neto – não se sabe muito bem em que circunstâncias mas as sombras de Burke e Hare pairam sempre sobre estes episódios. Não irei alongar-me sobre as questões legais (que não conheço) ou éticas que permeiam esta situação, mas as tradições em que a coleção, circulação e exposição de remanescentes humanos consta dos significados e ritos culturais associados à morte são antigas e pervasivas.
Sobre o crânio, diz o homem: «é o meu avô, Valentin
Aguilera, um fanático do Racing de Avellaneda» (itálicos meus). Há, pois, uma
identificação total dos remanescentes esqueléticos com a pessoa; o crânio não pertence
ao avô, o crânio é o avô. A identidade pessoal pode materializar-se no corpo, no esqueleto, mas
não através de uma materialidade irredutível (inteiramente genética) e sim de
uma materialidade que acontece. Existe, pois, uma relação intrínseca entre
o crânio e a identidade de Valentin Aguilera. Foi ele mesmo, e não um objeto ou vestigium
vitae, quem testemunhou a vitória do seu clube.
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