As crianças – tantas vezes abandonadas nas margens do registo arqueológico – começam a emergir nos interstícios dos novos paradigmas da Arqueologia Social e da Antropologia. Esse movimento ocorre na esteira do trabalho seminal de Philippe Ariès ( L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime , 1960) e, sobretudo, dos avanços dos estudos feministas e de género, que as reposicionaram como agentes ativos do passado, dotadas de identidade social e cultura material próprias. No âmbito de uma intervenção arqueológica levada a cabo na Ermida do Espírito Santo (séculos XVII-XIX), em Almada, foram recuperados os remanescentes esqueléticos de 88 indivíduos inumados em sepulturas individuais. Ou melhor, façamos justiça à possibilidade de precisão da linguagem: foram recuperados 84 indivíduos em sepulturas individuais e quatro em sepulturas duplas. Duas mulheres jovens e dois perinatos. Estes, comme il faut , aconchegados nos braços das (presumíveis) mães - posição que convoca de forma po...
Nem bestas, nem anjos